[Resenha] Eu sou a Lenda - Richard Matheson

6 de dez de 2015
Eu sou a Lenda - Richard Matheson
ISBN-10: 8576572710
Ano: 2015
Páginas: 384
Idioma: português
Editora: Aleph
Classificação: 
Página do livro no Skoob
Uma impiedosa praga assola o mundo, transformando cada homem, mulher e criança do planeta em algo digno dos pesadelos mais sombrios. Nesse cenário pós-apocalíptico, tomado por criaturas da noite sedentas de sangue, Robert Neville pode ser o último homem na Terra. Ele passa seus dias em busca de comida e suprimentos, lutando para manter-se vivo (e são). Mas os infectados espreitam pelas sombras, observando até o menor de seus movimentos, à espera de qualquer passo em falso... Eu sou a lenda, é considerado um dos maiores clássicos do horror e da ficção científica, tendo sido adaptado para o cinema três vezes.
Resenha:
Robert Neville reforçou a segurança de sua casa com toras de madeira em todas as janelas. Ele instalou geradores, congeladores e fogões elétricos. Empilhou um enorme estoque de enlatados, congelados e uísques. Ele incendiou todas as casas da vizinhança na tentativa de afastar os monstros que agora tentam o matar, mas que continuam retornando noite após noite para bater em sua porta. Robert Neville pode muito bem ser o único homem na face da Terra e não está nada contente com tudo que aconteceu de uma hora para outra.

Uma peste dizimou a população global. Transformou homens, mulheres e crianças em mortos-vivos. Seres de capacidades limitadas sedentos por sangue. Vampiros. Criaturas da noite, que definham expostas ao sol. A peste levou a esposa e a filha de Neville. Há meses ele vive enclausurado no forte que um dia já foi seu lar. Há anos ele repete a mesma rotina de raiva, amarras e agonia. O álcool é um refúgio.

Desde o início senti algo diferente em Eu sou a Lenda. Essa premissa não é tão incomum, não é verdade? Mas estamos acostumados a vê-la com zumbis, e não vampiros. A obra de Matheson foi lançada ainda na década de 1950 e desde então é referência no gênero horror, ainda que eu não tenha me arrepiado ao ler nenhuma página. Entre as diversas problemáticas apresentadas, a esperança é a que mais chama atenção. Sim. Ter esperança numa situação como essa é algo extremamente perigoso. Neville aprendeu que matar é mais fácil que tê-la. E ele vai precisar tirar o resto de vida de muitos desses seres rastejantes.

O caminho tomado por ele é o da busca. Busca por respostas. Ele necessita entender o que aconteceu para seguir em frente. Mesmo que o mais próximo que ele consiga chegar seja em sua própria cova. Os milhares de pacotes de cigarro que agora ocupam o lugar onde sua filha já dormiu um dia vão servir de apoio para suas investigações científicas. Como a peste se alastrou tão rapidamente? Porque nada aconteceu a ele? Qual o problema em ser um vampiro? Seriam eles uma bela de uma metáfora para as minorias e suas necessidades?

Enquanto o sol estiver brilhando no céu Neville tem certa segurança para se locomover pelas ruas de Los Angeles em busca de suprimentos, livros e gasolina. Se o carro que ele roubou do vizinho quebrasse no meio do caminho ele estaria perdido. É com incertezas assim que ele convive diariamente. Seja na rua ou no quarto sempre cheio de areia por causa das tempestades de poeira que assolam diariamente a região. Preso em ideias malucas e estudos sobre o corpo humano, ele teme nunca chegar ao problema exato que o levará a explicação que tanto almeja. Sentir-se atraído pelas vampiras que o excitam apenas para matá-lo o deixa furioso. Estar sozinho o deixa furioso. Pensar no que passou o deixa furioso. E sua fúria é um combustível.

O desfecho consegue fugir de todo o clima linear em que a história foi construída. Apesar da narrativa ir e voltar, intercalando momentos do presente e lembranças do passado, senti que reviravoltas não existiram. É como se a angústia de Neville suprimisse tudo. A edição da editora Aleph é caprichosa. Como se não bastasse a capa dura e o design em tons sombrios, ao final do livro podemos conferir uma crítica biocultural, que vai a fundo em cada detalhe da obra, e uma entrevista com o autor sobre o seu trabalho. A narrativa é feita em terceira pessoa.

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